A luz de Chico Albuquerque

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By jornaldafotografia.com.br

“Só a luz salva”, dizia Chico Albuquerque. E de luz ele entendia desde pequeno: Francisco Afonso Albuquerque, nascido em 25 de abril de 1917, na capital do Ceará, vem de uma família de fotógrafos. Além de seus pais, Adhemar Bezerra de Albuquerque e Lasthenia Campos de Albuquerque, três de seus oito irmãos também acabaram se encantando com o ofício.

É com 15 anos de idade que Chico Albuquerque ganha interesse pela criação de imagens, ao ajudar o pai a filmar algumas das sequências de um documentário de curta-metragem sobre o drama da seca no nordeste brasileiro. Já aos 17, ele viajaria para o Rio de Janeiro e se profissionalizaria em retratos, oportunidade na qual conhece os alemães Stephan Rosenbauer e Erwin von Dessauer.

Depois, participa das filmagens do documentário de Orson Welles sobre a América Latina como fotógrafo de cena. Apesar de It’s all true (1942) nunca ter sido concluído – um acidente que ocorreu durante a filmagem tirou a vida do personagem Jacaré – a experiência com Welles deixaria rastros inescapáveis à memória e ao trabalho de Chico Alburquerque: “Orson Welles era um homem genial, boêmio e desorganizado. Aproveitei bastante sua estada no Brasil. Naquela época, eu fotografava sem noção de composição fotográfica. Foi ele que me ensinou. Antes de fazer uma tomada ele riscava num papel o que ele queria. Fazia a divisão do retângulo. Vi então que era necessário ter uma noção de estética para fotografar direito”.

Orson Welles nas gravações de It’s all true (1942), fotografado por Chico Albuquerque

Orson Welles nas gravações de It’s all true (1942), fotografado por Chico Albuquerque

“Ele dizia que aprendera com Orson Welles as noções de enquadramento no visor, a composição dos ‘pontos de ouro’ na imagem e a valorização da luz natural mais ‘dura’”, diz Patrícia Velloso, curadora de Mucuripe e do acervo de Chico em Fortaleza, cerca 5.000 negativos e 200 retratos em papel (o Instituto Moreira Salles paulista guarda outros cerca de 60 mil negativos e 3.000 ampliações).

Outra marca indelével que o filme deixaria na sua trajetória artística é a de reforçar sua identidade com a terra natal. Em 1952, aos trinta e cinco anos, ele retornaria à praia do Mucuripe, onde estivera dez anos antes, para fotografar a paisagem cearense e a vida dos pescadores que usavam jangadas de piúba (bem menos seguras que as de hoje) para enfrentar o mar. O cotidiano e, de certa forma, a própria vida desses pescadores está registrado em um de seus ensaios mais célebres: Mucuripe, livro com 63 fotografias em preto-e-branco com fotos que enfoca a força física dos jangadeiros, sua relação com a natureza e seu ofício. Nas paisagens, o enfoque nas linhas diagonais  traz movimento às composições. Mucuripe só seria publicado no final dos anos 1980, depois de Chico voltar à praia uma segunda vez e fazer um segundo ensaio (que serve de contraponto aos registros feitos em 1952).

Com a vela do barco pendendo para um lado e o corpo do jangadeiro inclinado para outro, quase que podemos imaginar o refluxo do mar - tal é a capacidade de Chico Albuquerque de conferir movimento às imagens

Com a vela do barco pendendo para um lado e o corpo do jangadeiro inclinado para outro, quase que podemos imaginar o refluxo do mar – tal é a capacidade de Chico Albuquerque de conferir movimento às imagens

A importância do Foto Cine Clube Bandeirante

Em 1945, decidido a fazer fotografia, viaja para o Rio de Janeiro, onde fica por apenas dois anos. Estimulado por Stephan Rosenbauer, Chico Albuquerque decide vir para São Paulo e acaba abrindo um estúdio na Avenida Rebouças e filiando-se ao Foto Cine Clube Bandeirante. É lá que Chico Albuquerque realmente se encontra: o espaço ficaria conhecido por aglutinar um grupo de fotógrafos de feição contemporânea, urbana e cosmopolita, que – além dele próprio – inclui Geraldo de Barros, Ademar Manarini, Gaspar Gasparian, Rubens Scavone, Thomas Farkas e German Lorca:

“Conheci o Chico no Foto Cine Clube Bandeirante. Naquela época,o clube não tinha o nível dele, ainda era amador. Os frequentadores tinham uma boa situação financeira, porque eram engenheiros, industriais, médicos, farmacêuticos, dentistas. E o conceito de “amador” era o de um sujeito que podia comprar uma máquina e fotografar, mas nem todos tinham total domínio da técnica, nem faziam laboratório. Com o tempo, o negócio começou a se modernizar, e o Chico entrou também no jogo do mundo moderno. Ele participava dos concursos, das discussões… A chegada dele ao Foto Cine Clube foi um grande momento, trouxe mais qualidade. Quando ele chegou, a coisa mudou. Qualitativamente, as cópias mudaram muito. Ele as fazia com qualidade e também exigia isso. Com ele conheci uma nova trilha no fazer do retrato, porque o retrato dele era supremo! O pessoal fazia, mas não era a mesma coisa. Ele me ensinou, por exemplo, que nunca se deve cruzar duas luzes. Dizia sempre: ‘Uma, e a outra mais suave’. Foi um grande aprendizado”.

A chegada dele ao Foto Cine Clube foi um grande momento, trouxe mais qualidade. Quando ele chegou, a coisa mudou.

Chico Albuquerque tinha entrado para o circuito paulistano das artes visuais. No Boletim Foto Cine Clube Bandeirante de julho de 1947, o retrato “Marujo Americano” de Chico Albuquerque está na capa e, na página 12, sobressai-se o seguinte comentário a respeito da Exposição F. Albuquerque:

“(…) O jovem artista patrício que acaba de montar seu estúdio fotográfico nesta capital não é desconhecido entre nós, pois já vem aureolado pela consagração crítica no norte do país e no Rio de Janeiro. (…) Dominando a técnica com maestria ímpar, as composições e paisagens expostas ao lado dos seus retratos, de elevado teor artístico, estão a demonstrar que Albuquerque não encontrou na fotografia um simples meio de vida, mas a satisfação de suas inquietudes espirituais por onde se reconhece o verdadeiro artista”.

Em depoimento dado a Eduardo Salvatore em 1980, Chico Albuquerque assume a importância do fotoclube para sua entrada no mercado profissional, declarando:  “Para um desconhecido fotógrafo, chegado a São Paulo sem nenhum ambiente, nada poderia ser melhor. Como tantos outros fotógrafos, amadores e profissionais, comecei fazendo fotografia isolado. Isso leva o indivíduo a se copiar sempre e, como consequência, a abandonar a fotografia ou, o que seria pior, a uma egolatria fotográfica. O Foto Clube Bandeirante me deu uma espécie de formação acadêmica: seminários, participação em salões, palestras, julgamentos. Enfim, aprendi muito. Tirei meu diploma”.

Não demorou para que o mercado publicitário percebesse que era o momento de aproveitar todo esse talento. Em 1949, Chico Albuquerque assina a primeira campanha publicitária brasileira ilustrada com fotografia, para  Johnson & Johnson, assinada pela agência J. W. Thompson (até então, as campanhas eram concebidas apenas com desenhos).

A conquista do sudeste

Nas décadas a seguir – entre 1950 e 1970 – Chico trabalha com propaganda e campanhas comissionadas dos setores da indústria automobilística, alimentícia, de arquitetura e de moda, ganhando destaque pelo arranjo harmonioso dos elementos que formam e integram o cenário de suas imagens. Nelas, a São Paulo, com suas construções verticais, letreiros luminosos e calçadas repletas de pedestres e ganha linhas e sombras bem delineadas – Chico Alburquerque dá ao espaço urbano uma geometria própria.

Mesmo nas fotos de enquadramento amplo, Chico Albuquerque encontra nas linhas inclinadas, que convergem para um ponto de fuga, estratégias para conduzir o olhar do espectador à profundidade do espaço retratado

Mesmo nas fotos de enquadramento amplo, Chico Albuquerque encontra nas linhas inclinadas, que convergem para um ponto de fuga, estratégias para conduzir o olhar do espectador à profundidade do espaço retratado

Tanto a luz quanto o uso do contra-plongée (plano fotográfico de cima para baixo) conferem maior verticalidade e amplitude ao arranha-céu

Tanto a luz quanto o uso do contra-plongée (plano fotográfico de baixo para cima) conferem maior verticalidade e amplitude ao arranha-céu

Seu desempenho na publicidade o leva a montar um invejável conjunto de equipamentos: câmeras de grande formato e de médio formato, a Rolleiflex e a câmera 35mm Leica; Nikons, Hasselblads, Plaubels, Broncolors, lentes, fotômetros, filtros. Chico Albuquerque foi, ainda, o primeiro profissional de São Paulo a comprar um sofisticado conjunto de flashs eletrônicos, abandonando as altas temperaturas da luz contínua e, com isso, criando novas possibilidades de produzir efeitos de luzes – o que viria a caracterizar seu estilo.

Muito bem relacionado, passou a ser procurado por políticos e artistas para fazer retratos. Neles, as composições carregam marcas autorais como o uso de ângulos inusitados e abordagens diferentes para cada personagem. Há uma certa teatralidade na maneira como Chico Albuquerque fotografou as personalidades paulistanas, realçada pela iluminação com sombras ou contrastes e pela expressão de seus retratados:  às vezes olhando impetuosa e diretamente para a câmera, às vezes perdidos no ar, às vezes olhando para baixo e rindo ao mesmo tempo. Nos retratos, mais do que a fisionomia das celebridades, também vemos um pouco de suas identidades – e, em alguns casos, a própria pessoa parece revelar-se diante de nossos olhos.

Chico Albuquerque capta Hilda Hilst em um momento de contemplação que, de certa forma, prenuncia a dureza de sua poesia

Chico Albuquerque capta Hilda Hilst em um momento de contemplação que, de certa forma, prenuncia a dureza de sua poesia

Na imagem à esquerda, o contraste entre claro e escuro, com o rosto da personagem na sombra e os cabelos bem assentados em destaque, parece torná-la ainda mais misteriosa e solene

Na imagem à esquerda, o contraste entre claro e escuro, com o rosto da personagem na sombra e os cabelos bem assentados em destaque, parece torná-la ainda mais misteriosa e solene

Com o merecido prestígio no mercado publicitário, entre 1967 e 1973 Chico Albuquerque assume o Estúdio Abril sob a premissa de criar uma identidade visual para cada revista publicada pela editora e coordenar um grupo de fotógrafos da empresa. Primeiramente, o Estúdio Abril ocupa o endereço da Avenida Rebouças; depois, acaba se transferindo para um espaço maior, na rua do Curtume, quando Chico passa a ser assessorado por Sergio Jorge e Roger Bester.

O retorno à Fortaleza

Em 1975, Chico Albuquerque retorna à Fortaleza, onde monta novo estúdio. Em 1981, é convidado a assumir a coodernação de um grupo de 12 repórteres fotográficos do jornal O Povo, trabalho que iniciou melhorando a qualidade do laboratório e ajudando na formação técnica dos fotógrafos. Em 1989, lança a primeira edição de Mucuripe, com tiragem de mil exemplares.

Chico Albuquerque trabalharia até o final de sua vida, quando sofre um enfarte fulminante e falece. Era o ano 2000. Seu último trabalhado, registrado em câmera digital, são as fotografias das caixas pintadas pela irmã Maria Luciola para comercializar os produtos da doceria dela, a Balu, no bairro da Aldeota, em Fortaleza. Nesta cidade, três anos depois, seria fundado o Instituto Cultural Chico Albuquerque.

Destaques da Carreira

O fotógrafo recebeu a medalha de ouro (1950), pelo Foto Cine Brasileiro, Rio de Janeiro; no 100º Salão Fotográfico Internacional de São Paulo (1951), recebeu a medalha de bronze; no Concurso Alexandre Del Conte (1952), recebeu a medalha de ouro na categoria melhor conjunto estrangeiro; no Salão Sergipano (1952) ganhou a medalha de ouro; representando no exterior a Arte Fotográfica Brasileira, recebeu o 3º lugar ou  a Medalha Edmundo Macedo Soares (1952); no Salão Internacional de Frankfurt (1953) recebeu a medalha de ouro pelo melhor retrato; no 6º Salão Internacional de Fotografias de San Sebastian (1953), na Espanha, recebeu a medalha de prata; no 1º Salão Internacional de Santos (1954), ganhou a medalha de ouro; no Salão Internacional de Santo André (1954), recebeu o 1º prêmio; em 1958, foi homenageado com o Troféu da Escola de Propaganda de São Paulo; foi declarado o “fotógrafo do ano” pelo Prêmio Colunista (1983); laureado pelo Governo do Estado do Ceará com a medalha da abolição, em 1996; recebeu o Prêmio Nacional de Fotografia (1998) por sua contribuição à fotografia brasileira pela Fundação Nacional das Artes (FUNARTE), Rio de Janeiro.

Entre as mostras individuais de Chico Albuquerque, figuram A Jangada (1952), no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP); Coleção de Frutas (1978), no Bank Boston, em São Paulo; 130 Fotos de Personalidades Paulistanas 1945-1955 (1982), na Galeria Fotóptica, em São Paulo; Jericoacoara (1987), no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo; Mucuripe (2001), na Pinacoteca do Estado de São Paulo; Mucuripe (2005), no Musée National de la Marine, Palais de Chaillot, Paris, França; Retrospectiva Chico Albuquerque (2005), MIS, São Paulo; O Estúdio Fotográfico Chico Albuquerque (2013), MIS, São Paulo; A São Paulo de Chico Albuquerque (2013)Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca, São Paulo.

Entre as exposições coletivas, Chico Albuquerque esteve no 10º Salão Fotográfico Internacional de São Paulo (1951); no Salone Internationale de la Técnica, Torino, Itália (1952); no Salão Internacional de Fotografia de San Sebastian (1953), organizado pela Sociedade Fotográfica de Guipurcod, Espanha; no 14º Focus (1954), Salon Amsterdan, Holanda; no 1º Salão Internacional de Santos (1954), São Paulo; em “São Paulo 450 Anos: a imagem e a memória da cidade no acervo do Instituto Moreira Salles” (2004), organizada pelo Centro Cultural Fiesp, em São Paulo.

Em vida, publicou o livro Mucuripe, em 1989.

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